8.12.18

A linguagem das aves


Era a linguagem das aves,
Quando tu me ciciavas o amor
Com a antiga cadência
Das estrelas e cometas
Com a voz de druidas e profetas

Numa concha o mar intemporal
Revolvidas imagens do passado
Dos naufrágios e poentes
Dos mares orientais a ocidente

Sempre para dentro a tua voz
Migrava para o meu sangue
Eram ondas de prodígios
E vendavais em crescendo
E eu a conter o coração
Quando o deque pulsava
Na tua voz de maranheiro

Conhecemo-nos em Cádis
E em Ceuta nos amámos,
E entre portos nos perdemos
Numa onda fugaz do oceano

Mas depois foi em Lisboa,
Talvez no Chiado, ou no Arsenal
Na sombra de um qualquer Pessoa
Na rima de um poema antigo
Que nos sentimos unidos

E que mote nos tocou nesse momento
Se não este fulgor da descoberta
Mesmo tanto conhecendo?

Terá sido assim em sonhos?
A vida mais além do que vivemos?

Mas como foi que nos perdemos?
Talvez noutra viagem mar a dentro
Quando tudo nos unia de tão perto
Que a paixão nos apagou, por certo

Mas nada cala a voz das aves
Ouço a tua voz que me cicia
Memórias de amor tão delicadas
Éramos inocentes e não sabíamos
Que o mundo já nos apartava

Agora sabemos. Mas não se calou ainda
Esse mar na tua voz, essa harmonia

Essa toada onde oscila a fantasia
Como a queres? Como vês, a realidade
Nem sempre nos afixia

Não está em nós conter o destino
E eu viverei por ti onde viver
Entre portos e feitorias
Entre setas e seteiras
Num véu de bruma e cegueira
Ou no fogo onde arde a poesia



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