16.12.18

aqui


aqui nos calculamos
na métrica do verso alexandrino
nunca tão próximos e vizinhos
nunca tão estranhos e distantes

aqui a Lua entre correntes
tensa nas cordas do violino
noites esticadas num arco fino
e gritos surdos e dolentes
nas torres de sombra, a morte
dorme como um felino

aqui o tempo amortalhado
pronto a cair pela amurada
nessa viagem sem destino
apetrechada de amor, mas sem cais
para a chegada

não sei se é aqui
que nos preservamos em iodo
mas é num local indefinido
como indefinida é sempre a verdade
e a pele que temos adiada

aqui o sal rosa seca a vida
e reduz toda a contemplação
a uma passagem milimétrica
entre o pulsar do coração e o seu eco

mas aqui o eco hesita
não há sinais nos lençóis de linho
que atestem a natureza da alma
como finda ou infinita

nada que a receba no seu voo marinho
quando se lança, insana e surda,
num céu deserto, num voo
que nunca perde o destino, a verdadeira vida

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