30.12.18

Lázaro


Quero despir o teu corpo de Lázaro,
salvar a minha pele da tua distante alma

Lázaro (me) és na tua aparÊncia calma
saíste-me da escuridão, vieste à pedra
empurrar a morte que já me tinhas dado

chorava-te sem pena
como se chora o brinco perdido
tinha sido eu que te criara, filho me foras
e me partiras.

Então, um dia ressurgiste, Lázaro vivo
com uma espécie de fogo em chamas -
viveste-me no sangue quando o teu corpo repousava já
aninhado na região do impossível,
onde nunca tinhas tido expressão humana.

Como o corpo que em Cristo renasceu,
surgiste-me na úbere seara, uma espécie de raiz
funda e rara que afinal sempre foste,
quando te chorava sem pena
com uma saudade calma

Vesti essa tua pele renovada
com frases relativas ao mesmo antecedente
versos banais como palmas a um rei ausente

Agora, quero esvaziar as orações substantivas, cheias de verbos secretos
de sons de profanação da alma, essa alma que criei e moldei
e tem a mais humana essência de inquietação viva,
morena, real e festiva,
como quando Lázaro não tinha ainda a morte por destino
e a vida pós-renascida

Quero matar a intensa devoção que te devoto -
tanta intensidade não cabe em nenhuma caverna
e em pele alguma. Tanta vida não é para ser vivida.

Eu sei. Agora, apenas quero que a minha pele
(te) sobreviva, serena como dantes e (mais) una.


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