20.12.18

um homem

nasce a claridade nos montes e nos olhos
o homem desperta para si mesmo
antes do mundo

depois vai, devagar, na sua pressa
que é o vagar possível que há de ter

dentro reluzem figuras amorfas
gente da noite - seres que lhe entram
na escuridão

e vai, devagar, na sua pressa
para chegar onde o espera o pão

na pele ainda o odor da noite
a pressa de sair para suar mais
um homem nasceu para dormir e acordar

carregando sempre o peso da noite
que a consciência não pôde apagar

o que pensam todos estes homens
entre o balançar do elétrico, entre turistas
altos e louros, ecléticos?

o homem não sabe, mas talvez
todos limpem o rosto na manhã
quando o quotidiano os move,
sem fuga possível,
para o destino riscado na pele

o preço de ser apenas homem
paga-se com o entardecer de tudo
já é tarde para cancelar o mundo amordaçar a rotina

sai com um olhar de gozo
mais cedo ou mais tarde todos
os homens são muito pouco
são quase nada, por dentro,
onde agoniza o olhar moço

porque por dentro as rugas
são linhas e cosem-se ao corpo



Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixa aqui um lírio

Recentemente...

Persianas

Hoje fechei todas as persianas da casa, para encerrar cá dentro a minha solidão.  Não me incomoda o calor intenso, incomodam-me outras coisa...

Mensagens populares neste blogue