Eu sei que sim.
Há verdades que vestimos, como lã
quentinha, mas
elas deixam de nos servir
A assertividade de quem, perguntado sobre a estrada,
diz que não vai e náo quer ir, vem-nos à boca
pontualmente uma vez por mês
E assim, digo, esquece tudo,
apanha apenas as folhas que não caíram,
porque o resto permanece e o outono que virá é uma floresta de bagas
impróprias para ti
Já nos devolvemos demais, meu amor,
E ainda nos arriscamos a esse bosque
de bagas amargas a cair
Ama as mulheres que puderes
com a mesma naturalidade que pões ao sorrir.
As tuas pegadas precedem-te para onde vais
Numa cidade de gelo, com gente gelada
só o amor é quente o bastante
Eu continuo a vigiar as estações, sabes?
Com a mesma diligência de mãe
ou do faroleiro que já não tem luz
mas ainda tem sentir
Pensar em ti como o símbolo
de qualquer coisa que já esqueci,
graças a esta assertiva idade,
é melhor do que continuar a querer
revestir-me de hera e de eternidade
Ainda me afluirão sílabas quentes
que se apagarão no ar, nem sequer serão sementes
de um poema a querer sair
Serão folhas caídas por cada sonho que perdi
Será como recolher bagas maduras por demais
impróprias para consumir
Não faz mal. É mesmo assim. Depois da paixão,
vem o amor e depois a paz fica
a preencher o sentir
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