10.6.19

combustão de amor

Meu amor, vieste até mim
quando viste que o tempo era chegado

E vieste, pela noite, ao meu lençol
para me desinquietares
com essa tua voz ocasional
delicadamente leve, em vivo agrado

Mas eras forte, como lobo que desce ao povoado, e vieste
uivar-me no regaço, desamparamente
só, e num abraço
estreitámos toda a solidão do universo

Timidamente me tocaste
Timidamente te toquei

Mas a tua pele queimava
Em viva combustão de amor

E foi então que nós afastámos
com uma queimadura no coração
para aí do 3º ou 4º graus

Nunca mais o lobo desceu ao povoado
com a sua delicadeza de ave assustada

E ainda hoje me uiva dentro
e rasga a velha cicatriz,

Mas isso é tão belo, é um sofrer tão feliz
que não quero perdê-lo

Desce, meu amor, ao povoado
que seja  🌒 nova e nos oculte
o que ficou para lá rasgado


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