11.6.19
da autenticidade
O sono dos gatos no meu poema é autêntico
Ouço-o a rasar-me os ouvidos como um sopro de paz
A ausência de carros na rua e de portas a bater é algo tão autêntico como o ranger de canos no 1º andar, se rangessem
A autenticidade está na verdade das coisas,
mesmo nas nuvens que deixamos explicitar num poema
Ou nas episódicas passagens do amor sobre a terra. Ou na respiração profunda que se cravou fundo, numa terra proibida
Ou na prosaica fotografia do real que nos tocou - só a realidade é autêntica?
Sim, porque o amor é autêntico como respirar
e a escrita, se o não for, não passa de um exercício de retórica simplesmente elegante,
mas nunca será belo
Ora eu não sou poeta, nem
tenho retórica bastante para tocar a elegância de estilo,
mas os versos que escrevo têm cheiros, sons, memórias, instantâneos, às vezes lugares onde pousaram aves em silêncio no meu peito e eu sorri
Sim, só o real é autêntico, porque entra na memória, onde deixa sensações - a poesia recolhe simplesmente o que sobrou
A eu, que sou terra e sou real ainda não aprendi o fingimento, mas hei fazê-lo, porque alguém disse que ser poeta é (não) ser assim
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