10.6.19

O ser e o nada

Atravessei o mundo de frente para tras
colada a mim mesma, sempre estive em marcha à ré entre outeiros e marés

Quando chegava, já tudo tinha acabado.
Já todos tinham partido. Tudo estava concluído, quando eu esperava que fosse começar. Ao amor, cheguei depressa e já
tinha terminado

Não contemporizei nada do que vivi
sempre atrasada na busca desse bem
que todos buscam ao viver
alcancei-me quando me perdi

Interroguei-me como Camões
sobre o desconcerto do mundo
e, também como ele, vi que só para mim
o mundo andava concertado

Porque a natureza de tudo é a retração
até   ao momento da criação, em que cada
ser vivo se resume, no final,  ao mesmo
elemento neutro antes de ter nascido

Assim, quando ando para trás apenas cumpro a minha natureza, o meu ciclo de
dispersão do ser para o nada


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