9.6.19

os poetas não cabem no mundo


Célia moçoila rosada, fruto das açordas de alho
e das papas de milho, cresceu gorducha e feliz
nutrida pela ditadura que assim a quis

casou apertada num vestido
viveu sempre apertada em tudo
inclusivamente no orçamento

os ângulos da casa eram farpas afiadas
onde prendia braços e ancas ao passar

D. Célia estava cada vez mais forte,
eufemismo popular bem intencionado
para uso de gente polida

não cabia na casa, não cabia na roupa
e o riso já não cabia também dentro de si.
D. Célia era feliz com a ordem das coisas,
começando por si

o mundo era grande demais para a sua fraca locomoção
e D. Célia desimpediu as ruas e começou a permanecer

não cabia em si de feliz quando a levavam de carro
a qualquer lado, onde também obviamente não cabia

D. Célia envelheceu com o mesmo peso no corpo e no coração

quando morreu também não cabia na mortalha
e a urna, tal como o mundo, era pequena demais para
a conter

Como ela, são todos os poetas - os que guardam para si
o que bem sabem fazer,

não cabem no mundo dos outros
com a sua poesia avantajada, o seu sonho desmedido

quando morrem, os poetas não cabem num jazigo
o esquecimento vai também ficar consigo
a encher a escuridão
e ninguém vai perceber
que por cada palavra que escreveram nascem flores em seu redor


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