3.6.19

Moinhos e castelos

Lastimo este meu lado racional,
Que vê apenas os moinhos
As pedras agudas a roçar
E o som intermitente das sirenes
Antes mesmo do temporal

Lastimo todos os que vejo e adivinho
Os falhados, os proscritos, os acoçados
Os despedidos, os que não têm qualquer uso, como papelão esmagado no lixo

Não vejo castelos e lendas, vejo a decadência

As idosas sem carinho, os velhos esquecidos
nos hospícios, os que não têm sucesso,
nem proveito, nem casa para alugar,
nem dinheiro para a pagar, choro as suas dores, no meu íntimo, um pássaro negro

Não há castelos, só moinhos fragmentados

Esmagados todos os que a queda apanhou,
Não puderam, não souberam, não fugiram a tempo - lastimo os que chegaram
a uma terra onde não se cabe,
só os ricos é que entram e se instalam
no espaço de quem fez a cidade

Que país atira para a rua tanta gente
Que gente é esta que cegou pela vil prata
e não lamenta, nem aceita os despejados,
os excluídos, indesejados, pela cor, pela língua, pelo magro ordenado, porque vivem na soez miséria que não produz PIB, nem
cash flow nem nada

Lastimo, lastimo tudo o que vejo e choro,
Choro em coro com os deserdados,
Eu que tenho tudo e não posso aceitar
Que a angústia vença um homem
E que este passe ao meu lado

Chorar é pouco. É nada. E a caridade, que só sustenta os patamares? Quem me ensina outro viver?

Lamento ser prosaica, deixar entrar no lugar da luz o mau-olhado, a má-sorte,
o enguiço do homem a quem ninguém explicou que o mundo está mudado, que o dinheiro está mudado e que a vida é uma roda gigante
que nos põe na mó de baixo, mal nos apanha descalços

São moinhos? Não, são medidas empacotadas que nenhuma espada abate

Neo-ultra-extra-hiper liberalismo, ismos, limos, lamas, lesmas, lumes, bitcoins e yenes, pura vernissage
Lago escorregadio, é tarde, é tarde

Mundo cão este onde um homem em vida morre, inútil, dispensável, descartável, biodegradável

Ah, almas generosas, chorem comigo a fina folha de aço que corta a humanidade


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