2.6.19

rios e caminhos

o poeta, algumas vezes, não alcança mais do que a paisagem
e deixa os olhos seguirem sem pressa pelas margens insubmissas
seja de um rio, ou de um caminho, o que é igual:
ambos correm cegamente para um lugar

acuso o poeta por ser tão leve e fluido, ao rasar o mundo só pelo olhar. o poeta não ama o presente. não frequenta o passado.
apenas quer passar com um aceno, uma pena e louros no cabelo

o poeta alonga o dedo na superfície do pó e oculta as sombras de luz ; no espelho não vê o esquecimento, não risca o momento, não lava a memória do móvel. o poeta mente

acuso os poetas de incúria, os poetas que seguem os rios e os caminhos, acuso-os  por não pararem o rio ou o caminho para se diluirem na paisagem com amor

o poeta tem medo de voltar atrás. sabe que é no passado que o coração já foi raiz
sabe que o presente não existe e só no movimento se reconhece vivo

o poeta nunca se alcançou. persegue-se e alonga-se como sombra ao fim do dia - os poetas são rios e caminhos inalcançáveis


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