o poeta, algumas vezes, não alcança mais do que a paisagem
e deixa os olhos seguirem sem pressa pelas margens insubmissas
seja de um rio, ou de um caminho, o que é igual:
ambos correm cegamente para um lugar
acuso o poeta por ser tão leve e fluido, ao rasar o mundo só pelo olhar. o poeta não ama o presente. não frequenta o passado.
apenas quer passar com um aceno, uma pena e louros no cabelo
o poeta alonga o dedo na superfície do pó e oculta as sombras de luz ; no espelho não vê o esquecimento, não risca o momento, não lava a memória do móvel. o poeta mente
acuso os poetas de incúria, os poetas que seguem os rios e os caminhos, acuso-os por não pararem o rio ou o caminho para se diluirem na paisagem com amor
o poeta tem medo de voltar atrás. sabe que é no passado que o coração já foi raiz
sabe que o presente não existe e só no movimento se reconhece vivo
o poeta nunca se alcançou. persegue-se e alonga-se como sombra ao fim do dia - os poetas são rios e caminhos inalcançáveis
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