2.6.19

parábola do peixe


o peixe está só no seu ribeiro raso. quase não tem água
para ondear o corpo como aprendeu a fazer

os seixos saem-lhe ao caminho, rolados na água, um após outro,
alguns calhaus travam-lhe a sua parte de água

o peixe procura o fundo leito onde nasceu, sabe que existe,
porque já o viu - havia tantos peixes no seu rio

ali, sozinho, desliza tristemente pelas águas. anseia
por grandes voos picados para dentro, como as aves lá do alto
fazem para baixo

um dia, o peixe viu uma agitação nas águas e um trapo colorido.
as cores pareciam peixes do mar, onde nunca fora. todos os dias vinha
o mesmo tecido e as águas ficam pintadas de ouro e outras cores

de tanto as ver, o peixe deixou-se ir atrás das cores pela corrente.
ébrio de as seguir, agarrou-se ao trapo, como se alimento fosse ou passagem para
o lugar que tanto queria

deixou-se pescar. o tecido com cores levou-o. mas não lhe devolveu a vida que ele
queria, nem a abundância de águas, onde o seu corpo ondeasse livremente.

jaz de boca aberta, mirando o céu, talvez sonhando que ser ave é melhor do que ser
peixe

alguns seres, como as pessoas, entregam-se ao que não têm
e não chegam a descobrir que o regato estreito é o único lugar que lhes pertence


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