27.7.19

melancolia


Quando me falavas, eu estremecia
com o mesmo sopro da flor abraçada pelo vento.

Hoje sou eu o vento que abana a flor que tu beijaste.
Melancolia do tempo ido.

A melancolia é sermos fogo fátuo
não visto mas não extinto.

E eu não tenho poesia, tenho amor.
O meu mester é mais a troca de mim por um sorriso,
apenas a graça do teu gesto, que a voz diga
o que não se adivinha, porque não pode ser visto.

A melancolia, meu amor, é a esteira de palha
onde nos prolongamos um no outro.
Podemos viver nela, se quiseres. Olha, o fio é fino e sedoso
e os vincos no meu corpo são os lugares do desencontro.

Não há rumos a ceder, a não ser este afastar lento e doloroso
do nó de nós, um nó que nos liberta de morrermos sós.

Mas olha, podes esquecer-me dentro da minha paz
que eu dispersar-me-ei no teu sorriso, porque, sabes,
pode ser indolor a dor do não vivido.


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