20.7.19

Moldura


Não há lugar para mim nesse quadro
Podes arrancar os olhos dessas tintas
São cores intensas do que sou e canso-me
Canso-me
Porque ainda não abandonei o lugar de estátua do jardim

Vou deixar a moldura sem bater com a porta
Dorme, meu amor, que eu saio sem entrar
O teu mundo afinal foi sempre teu
O chão, o bengaleiro e até o tapete
Foram peças jogadas às escuras
Ganhaste o direito da renúncia
E rasgate o teu rosto à minha frente

Pois bem. 
Sou por natureza mato e matagal
Nas noites a arder em frio
Nos dias a gelar de tanto sal
Mas sou por ti suavíssima sedalina
Dá mais pura remessa do oriente

Fiz viagens dentro do amor
Sempre te quis e desejei, amado e ardente,
Com louros enlaçados nos cabelos

Quando era cega já te queria,
No quadro onde mal cabiam
os traços da solidão e o meu presente

E nunca houve para mim outro lugar

Agora sou insana e surda
Como a ceara por ceifar
Sujeita ao vento e ao verbo
Presa ao amadurecimento
A ceara cede e estala em fogo
Num monólogo branco inutilmente

Porque me prendi na escuridão
Num quadro que nunca foi meu?

Quem me dá o direito de te querer
Tu que me revelas o que poderia ser
E me mandas ficar na moldura
Enterrada nas palavras, pagã triste
como a outra,
a quem o poeta quer e não consente?


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