2.8.19

Flores no cabelo


Entre sal e cloro, a futilidade da relva pesa-me nos pés. Há muita humanidade igual a mim. E eu não sou igual à humanidade de chinelos e calções de praia.

Quero mais solidão, mais esquecimento, plantas a crescer nos dedos e flores nos cabelos. Um transatlântico a caminho do mistério. Uma barca rosa no horizonte.

O mundo é ruidoso. Entre os animais, os ruídos são cautelosos e usam-se para a aflição ou para o júbilo. As flores empalidecem ou rejubilam de cor.

Mas os homens usam a voz para encher os dias e os minutos vazios. Sobrepõem a fala. Não se dizem, articulam-se.

Se não sabem ouvir-se como podem entender a antiga linguagem das flores nos cabelos?
(À direita, um beijo. À esquerda, um convite.  Nos dois lados, amor eterno.
Ao peito, amor ausente.)

Outros tempos de mais pudor e prudência na fala. Comedimento. Apetece gritar: Deixem passar o silêncio!


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