6.8.19

Perfil de barro

Já me cansa tudo.
Os cigarros dos outros, as batatas fritas, os livros que não chego a abrir.

Há muita gente feliz, famílias que se juntam e falam, gritam e riem, falam e gargalham, antes e depois de se juntarem. E também durante.

Cansam-me os sorrisos, as cadeiras de piscina e as vésperas de qualquer coisa. 

Também a tua sombra me cansa, por ser sombra e não presença. A poesia 
serve para colar bocados de cimento com a cola dos beijos fugazes. Tudo tão frágil.

Cansam-me as moscas e os plásticos que assombram o espaço. Canso-me do café forte desta terra. E de estares longe.

Gostava que me começasses a moldar, em barro, como um cântaro de água fresca.
Podes cozer o perfil de tédio, talvez para a eterna idade O barro é fresco e a água nunca cansa...


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