Gosto de falar contigo, mesmo quando falo sozinha, na minha prateleira de conforto.
Está-se bem deste lado, com as noites suavizadas pelo colchão Tempur®
que não tenho,
mas sei que conforta os ricos.
Ao diabo o conforto e quem o criou. É uma ilusão moderna das sociedades de consumo.
Sacrificamos a nossa vida pelo conforto. Uma dorzita nas costas é um colchão novo ou um aparelho de massagens. Um carro é topo de gama pelo conforto. Somos seres que atravessamos montanhas com os sapatos do conforto e nunca atravessaríamos o deserto sem um kit de sobrevivência nas mãos.
Mas o conforto é a covardia dos homens como Pessoa assinalou. Os que não arriscam a vida e a segurança por um ideal. A sua mensagem já era clara. Precisamos de timoneiros sem luvas de borracha, políticos que vivam no desconforto, precisamos que todos conheçam o lado desconfortável da vida. Eu sou desconfortável.
Nunca compro roupa de marca porque me cheira ao desconforto de quem a fabricou.
Acaso os sírios têm conforto? Ou os etíopes?
E os emigrantes nos campos de contenção?
Odeio os seres que se atravessam
num sofá do Ikea e consomem o conforto do consumo, a comentar o desconforto alheio, tão longe, não é verdade? Voltem para o desconforto, porque aqui o nosso conforto tem mais sentido em face da falta do vosso.
Morra o conforto. Pim. Acaso D. Afonso Henriques pensou no conforto do colo materno? E D. Sebastião precisava de ir morrer entre a mourama num lameiro de sangue?
Ah, não. Nunca houve melhor conforto do que confortar os que o não têm. Só no amor pode haver conforto.
Na paixão, no ideal, na aventura e no risco, não. Sair de si é caminhar para o desconforto. Confortavelmente ao encontro do outro. Mesmo sem mãos. Ok.
Por isso, gosto de falar contigo. Conforta-me atirar setas ao teu escudo confortável. Mas recebo com gosto qualquer desconforto teu e peço perdão se te desconforto.
Na verdade, o meu destino é confortável porque estás aí. Imagina o desconforto de não ter a quem desconfortar!
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