aquele homem que roi o queijo e a maçã
já foi de lugares mais altos, onde se via o
mundo até ao pôr do sol
mas um homem também desce quando lhe cai a vida para lugares mais baixos, sítios sem lugar para o sol,
onde os olhos rasam a rua vendo e contando os sapatos a passar
não é de estranhar que o homem roa
apenas o queijo e a maçã. a cave é o limite do seu derradeiro viver. tudo o mais também
e, como um rato na toca, estica
os dentes por querer mais,
mas o que morde é escuridão na noite
que desfalca a luz que não pagou
um homem tem limites para ficar
e outros para partir, mas na dança das sombras e memórias, mesmo emparedadas, as veias às vezes ainda se expandem de emoção
um homem pode usar a vida que teve como conduto. ao menos não lhe dá fome no peito
mas nessa noite mais aguda, uma sombra projetada pela rua mostra a cabeça alongada de um cão que assoma, ladra e gane, arranha e raspa o silêncio com as patas
à janela da cave, talvez o cheiro, talvez o lume dos olhos que o velho deita na rua, olhos humildemente alegres, resignadamente altos,
levaram o bicho a sentir outro igual
em sorte e solidão
o homem chamou-lhe "companheiro" e abriu a janela para o bicho entrar e este,
talvez memória do último dono, estendeu-lhe a pata em sinal de delicado agradecer
até nos piores tugúrios das nossas vidas pode produzir-se um pouco de mistério,
a imponderabilidade de qualquer coisa começar do vazio que havia antes
um homem só, a quem falta tudo, é rico se tem um cão, é rico se o inesperado lhe vem mostrar que na vida não há limites
impostos pelo ser que o acaso não venha
derrubar
ficaram assim, homem e animal, duas sombras maiores na casa onde, agora, a luz fazia menos falta e a fome menos frio
companheiro! e o homem percebeu que
já tinha nome para o cão, o nome de tudo o que, tantas vezes, ampara a queda
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