Sinto que sim. Ao meu modo felino,
acomodo-me a ser esta face opaca
que sorri, enquanto a idade se pendura
em todo lado e já nem o sorriso ri claramente.
Sinto que já zarpaste, porque não pudeste atracar ou não atracaste porque chegar nunca foi o teu leme. Sinto que sim. O meu deserto em cinzas oscila
para um longínquo mar sem ti.
Uma rapariga sentada à porta vê o homem da lua sozinho e, na cratera das māos, acarinha a ideia de ser vista e espera que, no seu modo ausente, o homem a siga de soslaio e saiba. Das emoções abertas no seu peito.
Não via. Ninguém viu e ninguém ousou ver.
E se viu, terá assobiado para o lado como o bébado que viu noutro a sua própria embriaguez.
Estou agora mais leve no meu modo limpo de ser e,
moderadamente, desespero o que não vem e quem não vê.
Agora que se esborou a memória
e eu me desfaço da pele de cobra sinuosa e solitária, daquele modo insidioso do desejo,
lamento as noites e o modo exclamativo da vida que fui deixando por aí.
O tempo devorou-nos o riso, o modo desprendido de ousar, a crença cega das crias de lobo a céu aberto.
De tudo isto resulta que há uma rapariga
sob esse olhar misericordioso
do homem da lua. Daria parte de si por um minuto dele ao seu modo leviano de outrora ser.
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