12.12.19

gato ocasional

ontem à noite, deixaste a casa às escuras sem a tua presença. precisei de abrir a noite para ver o que o tapete ainda tem de ti, pegadas de limbo, sinais almofadados de um gato ocasional. já não fechei a noite nem levei cada objeto ao seu lugar. nesse labor quase cego, vi que o tempo nos venceu como moedas que tiveram valor e já não têm. às vezes sinto-me no bolso dos outros e ironicamente rio-me,
porque não sabem que eu sei que estou no seu bolso. o meu valor é esta casa imensa coroada de sol em certas manhãs, esta resistência em fechar o sol nos meus dias, este saber que o mundo é possível e que essa possibilidade só a fico a dever a mim. um dia temos mesmo de fechar a casa e de colocar tábuas nas janelas, para que eu seja enfim livre deste pó de ilusão, destas aranhas em fogo, destes sinais no tapete, dos próprios pingos da chuva que ouvimos juntos. entende. a tua existência é confluente à minha. como separar o indivisível ou como unir o que não é pela orla menor da vida. o lume arde serenamente à minha volta e eu teço ilusões e aquela camisola começada há anos, lembras-te, já não serve no tamanho do teu amor. em que dia foi que saíste para comprar tabaco e não voltaste, ou fui eu que ceguei durante anos e me perdi na casa?

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