O sangue dilui-se devagar com o frio do fim de tarde como se fosse o
fim da vida a minar os ossos
Chove claramente nos meus olhos, a nudez maior do meu corpo
O abraço da rotina amplia o frio a caminho do cativeiro
Deve ser assim que se conhece a morte, um miasma de gelo colado ao corpo e o cérebro petrificado
Preciso da casa hoje, no saguão, um lume nas latas velhas, alçado até às tábuas e depois o arder lento das lembranças
A cama que não se abriu, na húmida espera do silêncio que escorre em sal pelas paredes
O abraço intenso da tua ausência enche a sala de um mórbido calor. Preciso de ti para rasgar todos os papéis, um a um sem nos doer
Palavras esfumam-se no tempo, tempo demais para não sermos o sangue quente do amor
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