2.2.20

O poço

Pela cintura da noite o homem atreve o olhar para mais longe. O que vê é o vulto amplo do seu tempo, enterrado, morto e chorado. A seu tempo.

O que não consegue ver é o tempo da colheita madura, quando a vida ainda muda e dança, mesmo na pele lassa e nas rugas.

Sobraram laços desatados e o passado enche a casa toda. O homem fuma memórias cansadas.

Não sabe fechar algumas portas. Uma está aberta. E é quase poço.

Mas ele sabe que há espaço para o amor novo, mesmo sem haver amor nos olhos das pessoas. Ninguém sabe ler o espaço novo que ainda guarda para o amor.

Por isso, um homem entrega-se ao poço, como a vela se dá ao vento e o idoso à morte. Entristecer por dentro é essa sabedoria certa de que nada volta como foi.


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