é na penumbra que o amor se faz
é na penumbra que o amor se diz
e nela é que a arte se contrasta e a fala se arrasta
na arte de dizer
estou na penumbra para não ver -
nesse estado de recusa do excesso de luz
a incidir no olhar
essa penumbra que é ante-câmara da noite
essa oposição parcial à luz
é o lugar da narrativa
chama a si a narração
e é narrador do que não diz
contamo-nos um ao outro
nesta penumbra do olhar
eu narro-me a ti e tu a mim
sem ser preciso falar
o que te conto não tem contornos
nem precisa de lugares
mas tu sabes o que conto e como sei contar
e como sei ouvir o que não me queres narrar
nesta penumbra narrativa
quem ouve tem sempre o melhor
quem conta não sabe que conta
quem conta só veste a penumbra
quando conta com amor
quem ouve quer apenas ouvir
as vozes que a penumbra tem
o narrador é mais importante
que qualquer alteração súbita de cor
narra-me devagarinho o (des)amor
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