25.8.20

Prostração

No ângulo da janela, a sombra empresta assento às ideias, quaisquer ideias que surjam.

Mas eu estou dentro da minha irrealidade. Não sei sair dela. O espelho tem uma Alice maravilhada com saltos altos a martelar o chão de xadrez e eu não encontro a rainha para tomar chá com ela.

Persianas alheias à luz, como eu entre as faces do espelho. Deixei o meu vestido de lágrimas preso à moldura e não me sai.

Sei vagamente que tenho de ir a sítios práticos que implicam que me prepare, me alinhe. Não tenho forças para me desviar do espelho. Vejo o dia passar numa só aresta do meu quarto. Ainda não sei porque fiquei presa ao apagamento do mundo útil.

Precisei desta ligação ao outro lado. Sonho-te só para mim, também preso e prostrado, num quarto fresco com três gatos empalhados.
Sentir-te é o que o meu corpo tem determinado, nada nos perturbe na tua voz terna ao meu lado.

Tenho uma foto tua, o teu cabelo ondeado, os olhos ternos, amargurados, e uma meia dúzia de sorrisos que não me foram dedicados. Beijo-te nas imperfeições do espelho e volto para lá, para o outro lado. Prostrada.

Ando para compreender a força que tem em nós o ser amado.

Não sei. Mas fiquei, assim, enfeitiçada, uma boneca articulada, com o corpo nas tuas mãos à beira da tarde.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixa aqui um lírio

Recentemente...

Dia dos (Des)namorados

Não sei que diga nestes dias especiais. Não há dias felizes com marcação prévia como no cabeleireiro. Que sejam felizes os apaixonados. Os q...

Mensagens populares neste blogue