Recolho búzios do mar para o ouvir mais tarde. Recolho conchas, seixos, pedrinhas buriladas pelo acaso das águas. Guardam a frescura por muito tempo. Ninguém entende o meu gosto pelas pedras e coisas do mar ou do rio. Povoo os lugares que são meus, ou os lugares por onde passo, com as minhas pedras. Umas porque têm formas engraçadas, outras porque são de granito ou de xisto, basalto ou apenas fragilmente nacaradas.
Também sou uma recoletora de sensações e coisas imateriais.
Apanho ideias à minha volta, capto climas e perceciono as situações. Consigo seguir a conversa de três grupos diferentes, se esta me interessar. Sou discreta. Mas sei observar.
Ainda capto e recolho outras maravilhas mais subtis, como os sinais do amor, por onde passo. As borboletas e outros seres maravilhosos. A oscilação da copa de uma árvore, braços para o céu, uma cintilação direta nos meus olhos, um símbolo partilhado por
amor, a Lua, o Sol, o espelho de água, a cratera, o céu estrelado, o ninho, a casa, o espelho de prata, a melodia encantada, a voz amada.
Pensei nisso hoje. Não posso dizer porquê, mas o amor sabe o que dá,
e só eu sei o quê. O amor é biunívoco e intransmissível. Quem está de fora é cego ou não vê.
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