As palavras devoram-me a voz, meu amor, todas as palavras, sobretudo aquelas que me saem sem as classificar como doces, agudas, pontuais ou farpas.
Detesto as palavras pontuais. Não dizem nada, afirmam-se com toda a banalidade das frases feitas.
Agudas são as palavras da noite, as que vincam o lençol dos dois lados, com um coração bordado pelo meio.
As farpas saem por destilação natural do ódio contra o mundo ou a favor de outro mundo. Apanha-as um leitor ocasional, talvez as devolva, talvez passe sem as ver ou as tome flagrante mente a peito.
As palavras doces são as que mais gosto de digerir, saborosamente íntimas e tolas, não importa, são as que vão barradas de amor, carinho e ternura.
Por vezes as palavras devoram-me a voz e ficam sem som, desnorteadas no peito à espera de partir.
É um ofício duro, o das palavras. Só cantam quando o coração as submete ao seu ritmo e, então, só então, são doces orquestras de anjos num quarteto de ocasião.
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