6.6.19

gatos na varanda


a jovem primavera por vezes retrocede e
está mais frio, dizes tu, pomos os gatos na varanda?

o tempo também retrocede, digo eu - sabemos que sim -
e depois de todas as voltas que já deu,
ainda falamos na imperiosa prioridade dos gatos
na varanda

ainda nos detemos em saber se a poesia dos gatos
no seu silêncio ancestral aquece algumas almas,
para além das suas

elegemos a poesia para nos amarmos
como dois gatos pardos perdidos no asfalto
vadios, desconhecidos, insuspeitos

e agora percebemos: ou há amor ou poesia
ou nos preocupamos com minudências como os gatos
ou nos assomamos à vida entre um par de palavras
e verbos gastos

a escolha não é minha, como não foram os gatos
a escolher a varanda onde o sol ainda não aquece
como a mim as palavras também (já) não o fazem

por isso, é melhor deixarmos os gatos quietos

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