17.1.26

A emoção

A emoção abriu a porta, entrou e ficou brevemente atenta. 

Uma sala sóbria e nela apenas uma cadeira e um homem.

Compunham momentos idos numa pauta muda. Choro ou riso eram as notas. Silêncios longos.

A emoção soube que era preciso preencher aquela vida. E ali ficou, enquanto pôde. 

15.1.26

Intimidade

Quando foi que olhaste a penugem louea  que me ornamenta os lábios e me afastaste o cabelo dos olhos, para me veres melhor?

Seria, talvez, num sonho de anjos, num daqueles momentos que só veneras depois de passarem. Na altura não são ainda momentos.

O que custa não é não viver, é viver sem ter vivido. Meu amor, se tu me afastasses o cabelo só para me veres melhor, não me desenhavas só um sorriso, mas toda a razão da minha existência. 

14.1.26

Preciso de aprender a chegar, porque agora só sei não ir. Se não vou, como chego?

Sente o amor que puderes pelos seres viventes, que eu descobri que não existo, não sinto as graças do entardecer, nem as nereidas da manhã. prossigo enquanto o vento bate na janela mal fechada.

Serás tu? Como vou saber?

5.1.26

Natércia

Se Natércia eu fora e tu poeta que és me desejasses, virias com olhos febris, espada e a pena aparelhadas, para me abrires caminhos, onde pudesse rir

Mas infanta não sou, nem tenho anagramas do poeta que a amou, sou a oculta face de um acaso

O teu olhar distintamente negro estará por aí sorvendo lábios, sorvendo vida e eu quero ser Natércia de ninguém, olvidada de todos, como penedo no fosso da lua

Escolho ir, tenho de ir, já não há nada para ficar



28.12.25

À beira do rio

Não mudámos o curso de nenhum rio, nem secar o vimos secar. No entanto estivemos sempre de mãos dadas desatadamente cegas à beira desse mesmo rio.

Não bebemos a sua água, por isso o nosso esquecimento é episódico.

Como os deuses, já somos antigos na arte de amar meros mortais, produzindo vagas de ocasional desejo.

A que tarda

Perdemos hábitos como os velhos perdem dentes. Por exemplo, esperei-te tantas noites na tua capa homérica, sem conseguir encerrar a noite, inconclusa esta por falta da palavra, tantas vezes te quis sentir, tanto quis ouvir o discurso lírico da noite, que acabei por me fazer eu a que tarda, a que tardou por ser demasiado imaterial o improvável abraço, a incerta intimidade. Mas sabes que fazes parte do meu plano de paz. Para a morte, ainda não, mas para uma pequena vida. E hoje, ainda por cima, abusei do café e da saudade.

18.12.25

Envelhecer e amar

Envelhecer, uma operação quântica que Afeta e pele

Os músculos existências

Amar é uma operação alheia a qualquer processo temporal e afeta apenas

O músculo do coração

E bate sempre na sua contração de sangue, sempre vivo

Amar e envelhecer, é lixado

Até ao fim, em caminhos paralelos inconvergentes, porém

Tangenciais

Emocionalmente ocasionais

Fala-me com o teu sangue, nenhuma batida emocional será demais

24.11.25

Temos pena

A existência quem disse que se dissolva todos os dias na mesma velha taça dos mesmos dias? Um qualquer existencialista privado do sonho, uma aparição feroz, uma verdade. Temos pena.

Dói saber que tudo é intangível para lá do nevoeiro chuvoso. Tudo. Até para lá do Sol. Da Lua enganosa.  Buscamos o sentido da vida através de velhos reposteiros e a vida é uma renovação exata da dor.

É verdade, sim. A viagem faz-se lenta, o mundo encolhe, as vozes suspendem-se no pó.

Velhos amores em napperons feitos de laçadas do pensamento e da saudade. Velhos poemas de um fervor salino.

É assim que deixamos de esperar que subitamente o amor venha ombrear connosco, tal como connosco vem ter o sol posto. 

Tudo é demasiado intangível meu amigo. Existimos para imaginar sem viver e vivemos do que imaginamos. Uma maré cheia vazia de sentido. Temos pena.

22.11.25

Ao inverso

Cheira ao fumo das lareiras, os cães não ladram trôpegos de frio.

Esta noite recolho o coração nas mantas, por falta do teu corpo, para dividirmos o frio e o chá por dois, para levarmos adiante a mesma insónia, o riso igual.

Não é verdade que partiste. Dizem-me que sim, mas eu sei que é tudo inveja, nunca viram, nem sonharam, um viver assim.

Perco-me nos dias e penso sempre que amanhã é véspera de alguma coisa. Talvez espere um pouco de apaziguamento, assim como um abraço silencioso que funde o frio e fende o mundo.

Mais nada me interessa, sabes? Tenho a pele couraçada desta ascese que nunca quis. Apaziguamento, muito, muito íntimo apaziguamento, a força que nasce de dois é algo por que se pode viver.

Mas ficamos aqui cada um ao frio, cada um de face muda, a contar o peso dos dias. E não há regresso. Caminhamos tristes e pálidos ao inverso, sempre ao inverso e é inverno as noites são tristes assim.


23.10.25

Drawing a portrait



I've been drawing a portrait
It should be your portrait
But everybody seems to see 
Someone else

Maybe you are not you
Or my portrait is not yours
I wish at least you are not
Someone else

Because I have painted your 
Portrait

And I have no doubt that I love
The portrait as I love you


18.10.25

Resistência

Uma cela fechada onde cresço com o que me restou

Um terrasso sobre o mundo onde pinto as dores da alegria

Palavras assombradas, a sair de uns dedos desabitados (porquê hoje?)

Porque resistes e descobres que nem tudo nos riscou o dia

Porque uma vida tem a duração exata da primeira à última resenha de poesia

E as contas são feitas com a emoção da primeira vista, do primeiro olhar que nos refletia

E, assim, não há nada em mim que te resista!



6.9.25

No rescaldo do tempo

Como estás hoje no teu mundo? Moras a terra justa, drenas o tempo em barro seco, ou enleias memórias num novelo?

A que te sabe o dia, um morno domingo algo outonal, onde a esperança inverna?

Que salvação temos nesta incúria do tempo? Nada nos salva, meu amor. Só o teu nome, como um sopro na nuca:

ainda não chegou e já é coisa difusa. 

Mas a tua sombra, sabes bem, onde estiver, é única.



16.8.25

Não consigo viver mais dias. Já são tantos e tão inúteis. Preparo lentamente a minha fuga, a maior de sempre. Será rápida e ninguém dará por mim, já que, presente ou ausente, ninguém me pressente. Falta aqui uma palavra. Uma só. Um só lírio. Nunca se ouve uma voz. É uma peregrinação que me assusta. Como se, na verdade, as minhas palavras viessem de um túmulo e esse túmulo fosse o meu. Pois bem. Que assim seja.

12.8.25

Carta

Na vida, o único sentido é o amor, o mais fértil dos sentidos é mesmo o amor, desculpa, passei toda a minha vida a dizer-te que só amando morremos melhor, (já que viver de amor é poesia), e agora já não tenho a certeza de sentir que sim, que ver o mesmo pôr de sol de mãos juntas, beber palavras pelos olhos e lacrimejar de emoção na mesma dimensão são as coisas que contam e que contamos, com o rosário de contas da narrativa que nos conta. Tenho tentado dizer-te que o vazio só está onde não está o outro. E se estiver o outro e houver vazio, então, esse não é quem amas. Não sei que mais te diga. Tens-me mas não me tens e eu não tenho nada. É uma deriva que leva à única conclusão possível. Nunca poderemos absorver mais do que a essência e essa é a sede maior da existência.

Mas entre perder o que és ou viver o que sou - passou toda uma vida.

Enfim, depois de tudo, alguém pisará as minhas palavras e cortará as minhas emoções, como caules secos, mas que não seja ninguém mais do que tu. E que te preencha a face do desejo.

6.8.25

Verbo declinável

Soubesses tu como te anseio, não como verbo declinável mas como o verbo do corpo

Virias, sem luto, sem estrias no peito, nada. Vinhas e pronto.

Sim, a solidão é minha. Mas não a quero. Obrigada, adeus. Que venha a próxima emoção. Ou nenhuma.


30.7.25

Incêndio

Mais que o incêndio nos matos, nos pinhais ou nas fráguas, arde o amor

Que é pior que brasas, que o lume do sol, uma queimadura amarga

E nós, almas profundas, somos as achas

Se ousamos querer, o sangue arde, molham-se as pálpebras

E se querer só não basta, desejamos, esperamos, desesperamos

O que faremos, amor meu, com as cinzas que sobraram?

Um dia ainda havemos de apagar um lume destes com os corpos e com as almas

Ninguém poderá dizer que passamos pela vida e não amámos

Mas eu nunca fui poeta, apenas armei fogueiras com palavras

E lancei achas

29.7.25

Epístola

Escrevo-te com estas palavras lisas, depois de passadas pelas correntes do tempo que tivemos. Meu amor, digo, e sei que não tenho cores que cheguem para te pintar o olhar com alegria bastante. Este livro é o caminho todo dos meus dias ao caminhar por ti, para ti, com a rara luz dos meus olhos. Tive as mãos sempre nos bolsos. Tirei-as apenas para te as estender. Meu amor, digo ainda. Sabes que, enquanto vivemos cada novo momento, já nos perdemos, nós que nunca nos achámos, a não ser nas palavras, como trolhas embriagados ao regressar a casa. 

A minha (casa) chama-se agora nostalgia. Refúgio de tudo, direção única, um só sentido, apenas o de viver. A nossa (casa) flutua na memória dos anjos, únicos seres capazes da nossa perfeição.  Falo da perfeição deste longo evento de busca e fuga, de encontro e renúncia. Fomos reclusos de uma busca de intimidade que nos tornou um só no desejo. Que importaram os outros?

Com o tempo, as pessoas começam a esquecer-se de mim e eu agradeço o lapso. Gosto de envelhecer com o esplendor do esquecimento. Mantenho as mãos nos bolsos, porque não tenho a quem as dar, mas sempre pronta a estendê-las para a loucura deste frio com que me aqueces em raros e episódicos momentos. Eu sou sempre eu. Lamento a incapacidade de fuga. Fui coerente comigo e contigo. Foste tu. E ninguém se compara a ti, nesta interiorização que cresce com a idade, meu amor, ninguém, ninguém. Não estou a morrer contigo, estou a viver comigo para te estender as minhas mãos, se algum dia as quiseres. Tenho o tempo que o tempo me dá. E o que o tempo me deu foste tu.


15.7.25

Nevertheless

I may cry in silence, yes, I might even dream of you sometimes

Nevertheless, nothing else is quite the same

It's true I cannot stand loneliness by my side, instead of your sweet presence

Nevertheless, it seems my destiny is this permanent inner liveliness

A fake joi, fake smile, soft manners for dogs and wolves running behind other people lifes

Nevertheless without you I'm alone and no poetry, no deep words, no strong feelings are to arise far from your sweet skin

I might be alone, yes. Did I choose this mood? Nevertheless, we came a long way to stand here

Isn't it time to stay together, as life is the only flood?


10.7.25

Doce vocativo

Meu querido, digo eu num fio de voz. Meu querido, doce vocativo, 

Na casa morna, no canto estreito é aí que eu digo  

Que as estrelas se desliguem como pirilampos cegos

Se eu não te chamar ainda, meu querido, meu terno vocativo

E que a casa não se abra ao som da minha voz se eu não te digo e repito

Meu querido, leve poeira luminosa num raio de sol, tua voz aviva a cera com que o digo

Meu querido, é o que eu sinto e tu reclinas a voz. Era sábado ou domingo e eu acordava no corpo da casa, tua ambarina voz, meu querido, rasava-me o ouvido

Agora digo com muita e depois nenhuma convicção, cada vez menos vivo, a voz quebrada no soalho, quase um grito

É assim que eu digo e recito uma lauda de improviso 

Que as flores todas se turvem se eu não te chamar ainda, no vão da casa, meu querido

Como um eco que se repete, meu querido, eu digo o doce vocativo, e digo, digo, digo

E o teu nome ido, ido, na casa onde um dia a alta voz dos teus passos se perdeu no mundo

4.7.25

Poemas de partir

Alguns poemas são virtuosos. Valem ouro. Outros cheios de pena, voam pouco. Outros ainda são tontos e bailam muito.

Mas os meus preferidos são lachas de partir entre mar e vento.

Daqueles que sentes como se estovesses lá, no equilíbrio mais improvável, aos saltos loucos e imprudentes.

Recentemente...

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