19.6.26

Cantiga

A existência é doce nos quatro cantos do meu peito.

É a casa de antes e a que será. Por esta porta entraste, por outra porta (não) sairás.

No ramo alto da mais alta árvore, um pássaro rasa a face do dia, o fogo vivo que será. E tu sabias?

Voos nos existem na sóbria paz. E tu, se os não sentes, o que serás?

Entrou o amor por esta porta, será que fica, ou partirá?


5.6.26

Sem nome

Escrevo sem nome o nome que no peito escrito tinha

Aos montes ensinando e às ervinhas que o melhor que guardo de ti era o momento em que vinhas


Racionalidades

Dirá alguém que a racionalidade rói por dentro a região do amor

E com razão o diz.

Já ando a escrever cartas de amor há tanto tempo que apenas a razão me assiste este mover dos dedos no teclado

Um ciclo teimoso de mim para ti

Onde estiveres poderás vir beber a tua sede de emoção

Mas alguém te dirá que o discurso amoroso é fruto de estranhezas climáticas 

Alheias ao coração

4.6.26

Cometer

Cometo o impossível quando acometo o teu ser (tão fluido) com jogos de amor, tu que és como um cometa que varre o universo e se assinala aqui e ali, sempre em rota de nenhuma colisão, a cometer a vida como quem comete uma fuga 

O amor joga-se ao ar, espalha-se até que o apanhe quem o quer e cometa a maior loucura de todas, a de o devolver como um boomerang de estrelas, que seja certeiro como a seta que o semeou e fez florir

Cometo a insana poesia do amor e tu cometes comigo o crime maior de deixar ser, como se a vida estivesse agora a nascer

28.5.26

Trocadilhos

Como me atrais, ontem e hoje, ainda agora?

Como me atrais tanto se tanto me trais?

E se me trais, vais ver a quem mais atrais

Noutra existência noutra terra, noutra hora

E se aí vais, alheio a meus ais, diz-me, porque me atrais?

São trocadilhos de quem trai a quem atrai, ou de quem atrai quem trai?

Perguntas estas tais, podes continuar a trair quem atrais que eu continuo a atrair quem não vem mais

27.5.26

Momentum

Efémero o olhar que balanço no universo, de estrela em estrela

A terra, escaldante, a brisa da noite a mexer-me no cabelo e eu deitada a sentir esse alento quente das lajes

Foi só um momento

Para eu ficar presa à lua, uma candeia de brilho, não foi preciso mais

Realizei que ela vai continuar onde está, depois de mim

Confortou-me pensar que deixo a lua aos meus herdeiros, conforme lhes deixo as lajes quentes onde pouso agora

O mundo pode mudar, mas não as estrelas nem as lajes do meu quintal

Achei que isso me fará partir feliz


24.5.26

Credo

Creio nas sagradas chamas da paz, flâmulas de contemplação, chamas de puro amor

Creio que o amor cresce como o trigo e a vida é pontualmente viçosa em cada estio

Creio que a morte é como as cinzas do lumeiro, sempre ardeu e arderá, enquanto houver braseiro

Creio em mim, como admiro as ervas que rompem o betão 

Creio em ti como nas horas avançadas da noite, que crescem fundas na solidão

Creio nela sobretudo, nessa oração silenciosa de quem se reúne consigo e sozinho limpa devagar o que resta do seu mundo

De resto, creio em Deus e Jesus Cristo, Os que carregam a cruz de cada um, o gesto maior e mais profundo 

Que eu recuso, sou só, carrego a minha luz e bebo do meu cálice a raíz do amor. Se amor vier, bebemo-lo juntos. Creio qie sim


7.5.26

Pregão

Alimento a fome com pouca cousa. Basta-me ver o teu olhar, ouvir a tua voz e imaginar que a tua fala se projeta paralelamente ao meu ouvido, sem desvios, sem arcos em ogiva. 

Na casa, a permanência é intermitente, como o farol do Bugio. Quando estou, escuto as ondas e espero por ti. Quando não estou, as ondas murmuram o teu nome. Mas tu perdeste a casa, como perdeste o brilho do olhar.

Grita por mim mais vezes, talvez te ouça, em vez de apenas ouvires as ondas, a voz seca das rosas.

Manda dizer um pregão pela aldeia, a anunciar que perdeste o caminho do meu ser, enquanto eu ando descalça pela vida, a jurar que eras tu, no outro dia, na esquina da tarde, a escutar, a olhar, a ver.

30.4.26

Ponto celeste

Eu sei que permaneces em lugares onde o hemisfério oposto expõe a sua belíssima flora constelar

Nunca vi os céus desse hemisfério, onde tu vês um, vejo eu o outro, nunca nos conseguimos morar

Mas, meu amor, repara, se o universo se comprimisse, haveríamos de nos fundir num só fogo, um ponto celeste

Haveríamos de ser unos, quando agora somos apenas únicos, dois únicos seres na multidão, esperando rasar a mão ou o olhar noutro ser único

Uma palavra com outra, adjetivo e nome, o verbo que teria o complemento em falta, Um admirável amor que assim se perde, Uma exata simetria que assim se busca - palavras que nos vêm frequentemente à boca

Tão inúteis como loucas


22.4.26

Quase a chegar

Estavas quase a chegar, meu amor, estiveste sempre a vir, vinhas logo, virias certamente muito prestes, mas não vieste

Sempre fui eu a ir, a correr comarcas e ribeiros, a passar pontes de palavras longas para passares sobre a sua trama escarlate

Flores ficaram em lugares escondidos, os caules envoltos em papelinhos pueris, as coisas que te dizia e vinham da minha pobre arte

Como aquela fonte (talvez cascata) que ainda guarda o meu perfil em espera, com o sol a acobrear-me os cabelos e tu sem vires, e tu sem veres

Os momentos passam, nós partimos, mas quem fomos ainda lá está

E tu sem vires e eu sempre a ir para cada vez mais longe das emoções

Que já não vêm, que tu não vens e eu quase não vou, porque quem fui é a sombra que cá está. E já chegou

20.4.26

Seres da madrugada

a todos os seres da madrugada, tanto os que sonham o dia, como os que embalam a noite, os insomnes, os doidos, os loucos, os bêbados, os operários que apanham por força maior o primeiro comboio da madrugada, 

deixo o recado: somos unos na inquietude e há poesia bastante nos nossos atos, nos pensamentos que passam e voltam, aflitos ou encantados

estamos a meio da noite, à espera de um comboio que já passou ou que virá atrasado

mesmo assim alcançamos um lugar na transcendência do tempo, paramos, quem somos, de onde viemos, para que abismo caminhamos, onde acaba o imenso céu estrelado?

a poesia é o canto do primeiro pássaro que virá, sem falta, pontuar-nos os medos

18.4.26

Dizem

Dizem que o amor vai e vem, volta e parte

Talvez

Mas o que ninguém ainda disse é que o amor permanece

Quando para tanto há engenho e arte

Quando para tanto o corpo de amor se veste

31.3.26

Insónia de Amar

Esta noite há luar. Visitou-me o tempo ido numa Lua insónia de amar.

Desbaratei o nome, cortei amarras, ligas e ligações, sonhos desenhos e ilusões.

Tenho sido o frio ferro da morte nos dias que restam. Podia passá-los a amar-te, ou a plantar flores num canteiro deserto.

Mas, como nos grandes amores da história, o vazio do outro só serve para mais amar o amor que já está morto.

(Mas, seja isso ou outra coisa qualquer, desenhas-me uma flor, deixas-me uma nota profunda do teu ser?)

14.2.26

Dia dos (Des)namorados

Não sei que diga nestes dias especiais. Não há dias felizes com marcação prévia como no cabeleireiro. Que sejam felizes os apaixonados. Os que creem ser queridos e amados.

Eu bebi ilusão a mais, quis demais, amei demais. Agora tenho em mim a harmonia universal, seja lá isso o que for.

É cedo para me esperares, tarde para me desespetares, nada me arrasta pelas correntes, nenhuma água me leva, nem eu vou.

Desapego-me do mundo sem pudor. Estou bem onde estive. Nenhuma ausência levita em meu redor. 

Depurei o sangue de qualquer licor e destilo a emoção serena de ouvir dizer que tive nas minhas mãos esta espécie de amor.

Só perto, mais perto, só muito perto o meu coração ouve o teu, nesta forma adérmica de amor.

29.1.26

Fúria dos deuses

Não digas nada. Escuta como é feroz este som da tempestade. Não perturbes o vendaval com o teu medo. Deixa-o largar a sua fúria até morrer. É o estertor dos tempos a lembrar ao homem o seu mísero poder. Como numa discussão de amantes, é preciso abater tudo, rasar, limar até ao declínio da voz.

Mas não digas nada. Nem tremas na tua caverna de betão. Às vezes, estes vendavais tremendos abanam janelas, torres, edifícios, só rugem, não dizem nada. 

Outras trazem a mensagem prodigiosa dos deuses, um sinal de mudança que livra as pobres almas amordaçadas, limpa corações, lava rancores. A ironia suprema de ser num clímax de dor e caos que se mudam destinos.

Cuidado, já pode ter mudado o teu. 

27.1.26

Cafeteira

Faço um café na velha cafeteira que faz subir a água para se juntar ao café. Enquanto espero penso na onda a molhar a areia, penso no vento a varejar a chuva, penso na emoção a crescer, penso na afluência do sangue ao meu rosto, penso em mim quando penso em ti ou quando os teus olhos se fundeiam nos meus. O som da cafeteira explode e rejubila.

Café pronto. Bebes tu ou bebo eu?

17.1.26

A emoção

A emoção abriu a porta, entrou e ficou brevemente atenta. 

Uma sala sóbria e nela apenas uma cadeira e um homem.

Compunham momentos idos numa pauta muda. Choro ou riso eram as notas. Silêncios longos.

A emoção soube que era preciso preencher aquela vida. E ali ficou, enquanto pôde. 

15.1.26

Intimidade

Quando foi que olhaste a penugem louea  que me ornamenta os lábios e me afastaste o cabelo dos olhos, para me veres melhor?

Seria, talvez, num sonho de anjos, num daqueles momentos que só veneras depois de passarem. Na altura não são ainda momentos.

O que custa não é não viver, é viver sem ter vivido. Meu amor, se tu me afastasses o cabelo só para me veres melhor, não me desenhavas só um sorriso, mas toda a razão da minha existência. 

14.1.26

Preciso de aprender a chegar, porque agora só sei não ir. Se não vou, como chego?

Sente o amor que puderes pelos seres viventes, que eu descobri que não existo, não sinto as graças do entardecer, nem as nereidas da manhã. prossigo enquanto o vento bate na janela mal fechada.

Serás tu? Como vou saber?

5.1.26

Natércia

Se Natércia eu fora e tu poeta que és me desejasses, virias com olhos febris, espada e a pena aparelhadas, para me abrires caminhos, onde pudesse rir

Mas infanta não sou, nem tenho anagramas do poeta que a amou, sou a oculta face de um acaso

O teu olhar distintamente negro estará por aí sorvendo lábios, sorvendo vida e eu quero ser Natércia de ninguém, olvidada de todos, como penedo no fosso da lua

Escolho ir, tenho de ir, já não há nada para ficar



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