tarde de blues e belas chamas de sol,
som e serenidade na pauta do terraço,
nos idos de setembro e não de março
deixamos o corpo seguir nas asas do sono
até ao infinito arrebol, preso ao céu
por um intangínvel laço
tarde de blues e belas chamas de sol,
som e serenidade na pauta do terraço,
nos idos de setembro e não de março
deixamos o corpo seguir nas asas do sono
até ao infinito arrebol, preso ao céu
por um intangínvel laço
São várias razões, não me recordo ao certo de quantas, mas há uma que nos faz acordar para o dia e essa razão é o amor, na esperança de o dar a quem o busca ou de o buscar em quem não o tem. É terrível este equívoco, que pode durar toda uma vida. O amor é uma projeção luminosa sem factos, nem razões que o suportem. Quebrei os sete selos e pus a saque a minha alma, exposta onde a curiosidade alheia a sorve. Mas uma razão me sustenta, como trave mestra da existência. Não há amor nas palavras, há amor nos sentidos. E com isto encerro as minhas mal paradas esperanças.
O que acontece quando percebemos que nada nos interessa, nem aquilo que dantes nos movia? Gostava de saber o que vem depois da apatia, sabendo embora que esta necessidade de conhecimento tem um fim meramente especulativo. Um estádio sucede a outro na rampa da idade, mas não é só a idade a determinar a indiferença relativamente a tudo em geral. Em qualquer idade pode dar-nos um enjoo geral da vida, uma sensação de inutilidade das mãos, dos pés, do pensamento.
Compreendo agora Gregor, o jovem protagonista da Metamorfose de Kafka. Nunca entendi a fantasia do autor. Uma pessoa vê-se transformada em inseto e a sua consciência intacta vive no corpo desse animal. Perde toda a sua mobilidade social, a sua utilidade como provedor do sustento da família.
Que lhe resta que o possa interessar no mundo? Não pode fazer nada. Perdeu a sua anima, o seu objetivo de vida. Não era uma vida feliz, limitava-se a trabalhar duramente, mas Gregor era estimado pela sua produtividade. Naturalmente, perdida até essa liberdade de se mover, de sofrer e de se validar afetiva e socialmente, Gregor perdeu o interesse por tudo o mais.
Parece-me que vivemos todos uma via-sacra de mudanças que nos arrancam emoções, sentimentos e até crenças. Não chamaria depressão a esse processo. Acho, simplesmente, que o mundo deixou de nos surpreender. Já vimos tudo, vivemos muito, adquirimos uma certa fobia social por via da loucura que ataca os homens e pronto.
De um ponto de vista filosófico há uma negação da existência, durante o próprio apogeu da existência, quando perfiguramos o nada no fundo dos nossos passos. Como Gregor percebemos a nossa própria inutilidade.
Já há várias noites em que o céu ruge em explosões de energia contida. Trovoadas espanholas, secas, daquelas que nos inquietam e nos prolongam nos mistérios do universo. É um rumor constante que alastra pelo mundo sem romper. Devem cair raios nos arvoredos, nas torres do mar. Feitas as contas, está mesmo sobre nós, mas somos seres abrigados, não nos sentimos alvos.
Clamamos por alívio, chuva. Nada. Tenho medo que a noite seca me entre nos sonhos e me amortalhe a consciência. É um inferno dantesco feito de choques de nuvens de energia que, mesmo no nosso abrigo, nos acordam o medo promevo dos primeiros homens, o medo instintivo dos animais e suas crias, afinal, como dizia o poeta, somos bichos da terra e nunca como numa trovoada nos sentimos tão pequenos.
Hoje dividi os anos pelas rugas do meu rosto, depois dividi as palavras escritas pelo quociente obtido e achei o tempo emocional da minha vida. Percebi que dei tudo às emoções, as permanentes e as vencidas.
Fácil será perceber a razão entre estas. Permanentes são muitas. Traduzem uma vida. As vencidas não contam. De fracos não reza a história e eu ainda estou viva.
Só contamos o tempo quando não há mais nada para fazer. E hoje, como ontem e amanhã também, é dia de ser.
A escuridão do dia enegrece o sangue, sabendo nós que a escuridão é o lugar último do ser.
De que precisamos, depois de não termos mais nada a não ser sentarmo-nos a olhar a escuridão do dia, à espera da escuridão da noite?
Gotículas de água na janela. São pérolas perdidas, caídas do colar dos meus desfeitos amores.
Chove-me silenciosamente a solidão e o nada chove também nos olhos tamanhos e argutos com que nasci.
O sonho mais sonhado de sempre, o encontro. O início, a fonte. {E nós já o sonhámos juntos e, por vezes, éramos apenas caminhantes de bolsos lisos}
Longe no tempo, no auge do sangue, eu lembro-me.
Foi assim:
Um homem busca um pouco de amor. Uma mulher também
Nas ruas e nos cafés o homem ou a mulher olham para quem não os vê, olham todos, {haverá alguém?} Ou então evitam ver quem realmente não veem.
Nunca ninguém lhes explicou as leis da atração, {se é que já foram doutrinadas}
Passam por quem os inviabiliza, os anula, porque não são vistos, apesar do seu andar tranquilamente líquido, deixando um rasto de solidão,
E pensam, {a invisibilidade é o seu modo de ser}
Tudo o que o homem quer é ser visto por alguém que lhe devolva a presença. A mulher também
Mergulhar nos seus olhos e parar nesse momento o silêncio
Apagar o rumor e a réplica do desprezo. {Talvez alguém, um dia}
Mas um dia, sim,
o homem é visto e vê quem o viu, como quando uma pedra rola e se detém noutra
Surpreendida por existir um ombro para si, a pedra fica e também vê. A história pode mesmo acabar aqui, mas não importa: fomos vistos
{Sonhámos juntos este encontro tanta vez!}
Para que tenta uma criatura simples rasar as aras dos deuses e poetas, no campo fértil das musas e das ninfas?
A verdadeira lírica está na existência comum - não tens nada, não és nada - mas tens nos olhos o reflexo de todas as viagens que fazes em teu redor, quanto simplesmente deixas de querer mais.
Existir é preencher uma pauta infinita com o som dos passos, escada acima, escada abaixo, na crepitação das ideias, na graça de criar e de reconstruir o belo.
A Natureza é o teu mundo. Não sabes ser sublime em nenhuma arte, a não ser na de existir, alheia ao tempo.
Não queres ser vista, nem amada ou admirada, queres apenas encher de poesia todas as horas do teu dia.
Fragatas, freios, ferragem, ferrugem, mundo este que já farta e nos afunda
Fragatas por traineiras e, para a fome do povo, de que servem as bandeiras?
Estes petroleiros armados que cruzam os oceanos com fogo nas trincheiras, e a inteligência das máquinas soberana e traiçoeira
Tanques em vez de ambulâncias, debulhadoras, ceifeiras. À míngua de paz morrem os povos e a guerra enche a carteira
Submarinas léguas para nenhum rumo...
E são cargueiros em vez de carga, aquela carga de luz, onde os lumes são escassos, o rei é rico e vai nu
E para quê o ferro, o aço, a bala, a química impura,
Ante os luminosos olhos dos infantes que vão um dia morrer na arena de uma guerra nunca sua
Mas vão alistados por penúria, por medo e desventura.
Ao diabo a pátria que cobiça, a pátria que se encarniça com
Fragatas, freios, ferragem, fúria infinita, mundo este que nos fere e nos faminta
Ao diabo a bélica brisa de morte que nos pisa
Há palavras sem música, grosseiramente vestidas de cacafonias, sílabas duras que se juntam a outras. É tudo uma questão de vogais e consoantes. Ou se harmonizam entre si ou se obliteram e desalinham na pauta sonora, como dentes nascidos fora do lugar.
Aquilo que é ubíquo ou oblíquo, enferma desta dolorosa gravidade esdrúxula latina. São palavras indignas de um texto com pretensões líricas.
Mesmo assim tenho de usá-las, numa única frase que seja a expressão de um sentimento digno da arte:
O amor é um ser ubíquo, mesmo que oblíqua seja a sua voz.
As aves são breves, abundantes, felizes
Alastram a sua beleza real por covas, desertos e alturas
Eu já fui ave. Sei que sim, porque as minhas pernas são voláteis, o meu chão é ruidoso, a minha terra é o silêncio
Novas venham virar os ventos, com envergadura e verve, com suavidade ou febre, que venham Bóreas e seus irmãos, Zéfiro e Noto, Suão ou Este, que eu ninfa já não sou, mas mulher por certo, que venha o sopro cálido da tua boca, para mim que me vejo inerte
Novas venham virar o tédio, o nada seco do deserto, e que sejas tu, a quem me entrego, que seja a tua voz por perto e que eu a ouça, na ponta azul de qualquer verso
Novas venham abrir as portas e que eu viva, entreaberta, a alegria de seres tu, atrás de qualquer face incerta
Tirei o vestido das rosas, aquele que voa com a brisa e se ergue com o vento
Vesti-o. Planei pela cidade a colher sorrisos, de pés leves e luz no olhar
Chegou a hora, amigas, dancemos ao sol e plantemos amor nos olhos e nos vestidos
Um dia assim pode mudar tudo, até ruborizar as rosas plantadas no meu sorriso
Tudo que eu queria era dançar.
Cheguei ao mundo para viver e tudo que eu queria era sorrir e dançar até ficar corada,
Como uma minhota robusta e feliz
Sem estigmas de má sorte
Depressa percebi que ninguém escolhe o destino num menú de esplanada
E fiz-me forte
Mas a verdade é que eu falhei ao chegar ao mundo para contemporizar os vértices mais odiosos do Nada
Olha, Musa, é bom que te cales, porque já não serves nem ao poeta laureado de Paio Pires,
Nem ao poeta que tens alimentado em dezenas dos teus verdes anos,
Nem ao voyeur ocasional que te vem ler à sorrelfa,
Ou ao incauto que aqui cai como mosca desatenta e logo voa
Nem aos raros seres que sabem o caminho das loas que despachas para o silêncio sideral...
... tudo isto enquanto a tua vida desce na ampulheta, e o Amor não te toca no ombro com o gesto doce de uma simples presença.
Que tristeza, Musa, tantas horas deste a quem te sugou o pobre sangue e a escassa verve, e tu a pensares que havia Amor.
A tua cegueira, a troca de letras, a teia de rugas que ganhaste em vinte anos vezes 365 noites fazem de ti, Musa, a mais patética criatura do Universo. E ainda consegues destilar algo mais do que amargura?
És fantástica, Musa, mas o teu Tempo está a desaparecer. Estás indignada? Ou confusa?
Às vezes o amor vem, mas nunca és tu. É outro amor qualquer, uma alma desviada, uma máscara sem vida
Outras vezes o amor vem disfarçado, de mãos nos bolsos, com a timidez de quem quer, mas não quer querer
Quando o amor vem sem disfarce e és tu, mesmo assim, és tu disfarçado de ti
E eu gostava que viesses inteiramente tu, não há amor que dure assim, o de dois que se fazem um sempre à espera da eternidade
E o tempo é só um
No meu estendal pesam as dores, pesam os mistérios e algumas roupas velhas molham as flores,
Pesos que agora me pesam mais do que já pesaram. Parece que todas as dores se resumem numa só, perderam a sua identidade, a sua origem, a profundidade que atingiram.
Agora é só uma dor e chama-se existência, esse modo tão terreno de ser.
Tão próximo do não ser
Uma onda é a resposta a outra, como um eco é a resposta a outro
A atração, dois ecos que se encontram e se unem no mesmo som
E o amor? Ah, o amor é também uma questão de ondas espraiadas na areia, uma encontra a outra e rolam felizes numa fusão de águas
tarde de blues e belas chamas de sol, som e serenidade na pauta do terraço, nos idos de setembro e não de março deixamos o corpo seguir nas ...