30.8.26

Contagem

Hoje dividi os anos pelas rugas do meu rosto, depois dividi as palavras escritas pelo quociente obtido e achei o tempo emocional da minha vida. Percebi que dei tudo às emoções, as permanentes e as vencidas.

Fácil será perceber a razão entre estas. Permanentes são muitas. Traduzem uma vida. As vencidas não contam. De fracos não reza a história e eu ainda estou viva.

Só contamos o tempo quando não há mais nada para fazer. E hoje, como ontem e amanhã também, é dia de ser.


26.8.26

Escuridão

A escuridão do dia enegrece o sangue, sabendo nós que a escuridão é o lugar último do ser. 

De que precisamos, depois de não termos mais nada a não ser sentarmo-nos a olhar a escuridão do dia, à espera da escuridão da noite?

Gotículas de água na janela. São pérolas perdidas, caídas do colar dos meus desfeitos amores.

Chove-me silenciosamente a solidão e o nada chove também nos olhos tamanhos e argutos com que nasci.

22.8.26

Sermos vistos

O sonho mais sonhado de sempre, o encontro. O início, a fonte. {E nós já o sonhámos juntos e, por vezes, éramos apenas caminhantes de bolsos lisos}

Longe no tempo, no auge do sangue, eu lembro-me.

Foi assim:

Um homem busca um pouco de amor. Uma mulher também

Nas ruas e nos cafés o homem ou a mulher olham para quem não os vê, olham todos, {haverá alguém?} Ou então evitam ver quem realmente não veem. 

Nunca ninguém lhes explicou as leis da atração, {se é que já foram doutrinadas}

Passam por quem os inviabiliza, os anula, porque não são vistos, apesar do seu andar tranquilamente líquido, deixando um rasto de solidão, 

E pensam, {a invisibilidade é o seu modo de ser}

Tudo o que o homem quer é ser visto por alguém que lhe devolva a presença. A mulher também

Mergulhar nos seus olhos e parar nesse momento o silêncio

Apagar o rumor e a réplica do desprezo. {Talvez alguém, um dia}

Mas um dia, sim, 

o homem é visto e vê quem o viu, como quando uma pedra rola e se detém noutra

Surpreendida por existir um ombro para si, a pedra fica e também vê. A história pode mesmo acabar aqui, mas não importa: fomos vistos

{Sonhámos juntos este encontro tanta vez!}


20.8.26

A arte de existir

Para que tenta uma criatura simples rasar as aras dos deuses e poetas, no campo fértil das musas e das ninfas?

A verdadeira lírica está na existência comum - não tens nada, não és nada - mas tens nos olhos o reflexo de todas as viagens que fazes em teu redor, quanto simplesmente deixas de querer mais.

Existir é preencher uma pauta infinita com o som dos passos, escada acima, escada abaixo, na crepitação das ideias, na graça de criar e de reconstruir o belo.

A Natureza é o teu mundo. Não sabes ser sublime em nenhuma arte, a não ser na de existir, alheia ao tempo.

Não queres ser vista, nem amada ou admirada, queres apenas encher de poesia todas as horas do teu dia.

12.8.26

Ao diabo a guerra

Fragatas, freios, ferragem, ferrugem, mundo este que já farta e nos afunda

Fragatas por traineiras e, para a fome do povo, de que servem as bandeiras?

Estes petroleiros armados que cruzam os oceanos com fogo nas trincheiras, e a inteligência das máquinas soberana e traiçoeira

Tanques em vez de ambulâncias, debulhadoras, ceifeiras. À míngua de paz morrem os povos e a guerra enche a carteira

Submarinas léguas para nenhum rumo...

E são cargueiros em vez de carga, aquela carga de luz, onde os lumes são escassos, o rei é rico e vai nu

E para quê o ferro, o aço, a bala, a química impura, 

Ante os luminosos olhos dos infantes que vão um dia morrer na arena de uma guerra nunca sua

Mas vão alistados por penúria, por medo e desventura.

Ao diabo a pátria que cobiça, a pátria que se encarniça com

Fragatas, freios, ferragem, fúria infinita, mundo este que nos fere e nos faminta

Ao diabo a bélica brisa de morte que nos pisa

6.8.26

Horizontes

Há palavras sem música, grosseiramente vestidas de cacafonias, sílabas duras que se juntam a outras. É tudo uma questão de vogais e consoantes. Ou se harmonizam entre si ou se obliteram e desalinham na pauta sonora, como dentes nascidos fora do lugar.

Aquilo que é ubíquo ou oblíquo, enferma desta dolorosa gravidade esdrúxula latina. São palavras indignas de um texto com pretensões líricas. 

Mesmo assim tenho de usá-las, numa única frase que seja a expressão de um sentimento digno da arte:

O amor é um ser ubíquo, mesmo que oblíqua seja a sua voz.

30.7.26

Aves

As aves são breves, abundantes, felizes

Alastram a sua beleza real por covas, desertos e alturas

Eu já fui ave. Sei que sim, porque as minhas pernas são voláteis, o meu chão é ruidoso, a minha terra é o silêncio


20.7.26

Novas venham

Novas venham virar os ventos, com envergadura e verve, com suavidade ou febre, que venham Bóreas e seus irmãos, Zéfiro e Noto, Suão ou Este, que eu ninfa já não sou, mas mulher por certo, que venha o sopro cálido da tua boca, para mim que me vejo inerte

Novas venham virar o tédio, o nada seco do deserto, e que sejas tu, a quem me entrego, que seja a tua voz por perto e que eu a ouça, na ponta azul de qualquer verso

Novas venham abrir as portas e que eu viva, entreaberta, a alegria de seres tu, atrás de qualquer face incerta

17.7.26

O vestido das rosas

Tirei o vestido das rosas, aquele que voa com a brisa e se ergue com o vento

Vesti-o. Planei pela cidade a colher sorrisos, de pés leves e luz no olhar

Chegou a hora, amigas, dancemos ao sol e plantemos amor nos olhos e nos vestidos

Um dia assim pode mudar tudo, até ruborizar as rosas plantadas no meu  sorriso

15.7.26

O Nada

Tudo que eu queria era dançar.

Cheguei ao mundo para viver e tudo que eu queria era sorrir e dançar até ficar corada,

Como uma minhota robusta e feliz

Sem estigmas de má sorte

Depressa percebi que ninguém escolhe o destino num menú de esplanada

E fiz-me forte

Mas a verdade é que eu falhei ao chegar ao mundo para contemporizar os vértices mais odiosos do Nada

Musa

Olha, Musa, é bom que te cales, porque já não serves nem ao poeta laureado de Paio Pires,

Nem ao poeta que tens alimentado em dezenas dos teus verdes anos,

Nem ao voyeur ocasional que te vem ler à sorrelfa,

Ou ao incauto que aqui cai como mosca desatenta e logo voa 

Nem aos raros seres que sabem o caminho das loas que despachas para o silêncio sideral...

... tudo isto enquanto a tua vida desce na ampulheta, e o Amor não te toca no ombro com o gesto doce de uma simples presença.

Que tristeza, Musa, tantas horas deste a quem te sugou o pobre sangue e a escassa verve, e tu a pensares que havia Amor.

A tua cegueira, a troca de letras, a teia de rugas que ganhaste em vinte anos vezes 365 noites fazem de ti, Musa, a mais patética criatura do Universo. E ainda consegues destilar algo mais do que amargura?

És fantástica, Musa, mas o teu Tempo está a desaparecer. Estás indignada? Ou confusa?

8.7.26

Desencontro

Às vezes o amor vem, mas nunca és tu. É outro amor qualquer, uma alma desviada, uma máscara sem vida

Outras vezes o amor vem disfarçado, de mãos nos bolsos, com a timidez de quem quer, mas não quer querer

Quando o amor vem sem disfarce e és tu, mesmo assim, és tu disfarçado de ti

E eu gostava que viesses inteiramente tu, não há amor que dure assim, o de dois que se fazem um sempre à espera da eternidade

E o tempo é só um

7.7.26

Dores

No meu estendal pesam as dores, pesam os mistérios e algumas roupas velhas molham as flores,

Pesos que agora me pesam mais do que já pesaram. Parece que todas as dores se resumem numa só, perderam a sua identidade, a sua origem, a profundidade que atingiram.

Agora é só uma dor e chama-se existência, esse modo tão terreno de ser.

Tão próximo do não ser

4.7.26

Persianas

Hoje fechei todas as persianas da casa, para encerrar cá dentro a minha solidão. 

Não me incomoda o calor intenso, incomodam-me outras coisas intensas que não digo

Fechei-me dentro da casa, contra os ruídos do mundo. 

Era bom que não tivesse entrado a inquietude de existir. 
Uma penumbra feita de frescura,
e o chão dentro de mim, a arder

Já não busco a tua mão. Não busco nada. Tenho medo que algum dia alguém me consiga ver, entre o silêncio, no apagamento das persianas,

no inverno deste longo verão.

1.7.26

Asserções

Uma onda é a resposta a outra, como um eco é a resposta a outro

A atração, dois ecos que se encontram e se unem no mesmo som

E o amor? Ah, o amor é também uma questão de ondas espraiadas na areia, uma encontra a outra e rolam felizes numa fusão de águas

29.6.26

Material literário

Pronto. Agora já sabes. As palavras são sombras do que foram. É uma pena desafiá-las na sua pujança ou miséria de águas.

Também eu desapareço nelas.  Lamentavelmente líquida, a minha vida corre mais do que eu. Queria ficar na antecâmara de qualquer facto.

O mundo mente. Tu mentes e eu já só vejo a matéria viva do tempo. É o crime do século. Desprezar a conotação, o lirismo, as rendas literárias e ser denotativamente banal.

Não desperdizes lume no teu apego ao ideal. O deslize superficial da foca. Isso sim, é material literário.

22.6.26

Medo do mundo

O melhor refúgio é dentro de nós

Fora, fica o ruído do mundo

Não me digam nada

Tenho medo

Profundo

Fundo


19.6.26

Cantiga

A existência é doce nos quatro cantos do meu peito.

É a casa de antes e a que será. Por esta porta entraste, por outra porta (não) sairás.

No ramo alto da mais alta árvore, um pássaro rasa a face do dia, o fogo vivo que será. E tu sabias?

Voos nos existem na sóbria paz. E tu, se os não sentes, o que serás?

Entrou o amor por esta porta, será que fica, ou partirá?


5.6.26

Sem nome

Escrevo sem nome o nome que no peito escrito tinha

Aos montes ensinando e às ervinhas que o melhor que guardo de ti era o momento em que vinhas


Racionalidades

Dirá alguém que a racionalidade rói por dentro a região do amor

E com razão o diz.

Já ando a escrever cartas de amor há tanto tempo que apenas a razão me assiste este mover dos dedos no teclado

Um ciclo teimoso de mim para ti

Onde estiveres poderás vir beber a tua sede de emoção

Mas alguém te dirá que o discurso amoroso é fruto de estranhezas climáticas 

Alheias ao coração

Recentemente...

Contagem

Hoje dividi os anos pelas rugas do meu rosto, depois dividi as palavras escritas pelo quociente obtido e achei o tempo emocional da minha vi...

Mensagens populares neste blogue