31.3.26
Insónia de Amar
14.2.26
Dia dos (Des)namorados
Não sei que diga nestes dias especiais. Não há dias felizes com marcação prévia como no cabeleireiro. Que sejam felizes os apaixonados. Os que creem ser queridos e amados.
Eu bebi ilusão a mais, quis demais, amei demais. Agora tenho em mim a harmonia universal, seja lá isso o que for.
É cedo para me esperares, tarde para me desespetares, nada me arrasta pelas correntes, nenhuma água me leva, nem eu vou.
Desapego-me do mundo sem pudor. Estou bem onde estive. Nenhuma ausência levita em meu redor.
Depurei o sangue de qualquer licor e destilo a emoção serena de ouvir dizer que tive nas minhas mãos esta espécie de amor.
Só perto, mais perto, só muito perto o meu coração ouve o teu, nesta forma adérmica de amor.
29.1.26
Fúria dos deuses
Não digas nada. Escuta como é feroz este som da tempestade. Não perturbes o vendaval com o teu medo. Deixa-o largar a sua fúria até morrer. É o estertor dos tempos a lembrar ao homem o seu mísero poder. Como numa discussão de amantes, é preciso abater tudo, rasar, limar até ao declínio da voz.
Mas não digas nada. Nem tremas na tua caverna de betão. Às vezes, estes vendavais tremendos abanam janelas, torres, edifícios, só rugem, não dizem nada.
Outras trazem a mensagem prodigiosa dos deuses, um sinal de mudança que livra as pobres almas amordaçadas, limpa corações, lava rancores. A ironia suprema de ser num clímax de dor e caos que se mudam destinos.
Cuidado, já pode ter mudado o teu.
27.1.26
Cafeteira
Faço um café na velha cafeteira que faz subir a água para se juntar ao café. Enquanto espero penso na onda a molhar a areia, penso no vento a varejar a chuva, penso na emoção a crescer, penso na afluência do sangue ao meu rosto, penso em mim quando penso em ti ou quando os teus olhos se fundeiam nos meus. O som da cafeteira explode e rejubila.
Café pronto. Bebes tu ou bebo eu?
17.1.26
A emoção
A emoção abriu a porta, entrou e ficou brevemente atenta.
Uma sala sóbria e nela apenas uma cadeira e um homem.
Compunham momentos idos numa pauta muda. Choro ou riso eram as notas. Silêncios longos.
A emoção soube que era preciso preencher aquela vida. E ali ficou, enquanto pôde.
15.1.26
Intimidade
Quando foi que olhaste a penugem louea que me ornamenta os lábios e me afastaste o cabelo dos olhos, para me veres melhor?
Seria, talvez, num sonho de anjos, num daqueles momentos que só veneras depois de passarem. Na altura não são ainda momentos.
O que custa não é não viver, é viver sem ter vivido. Meu amor, se tu me afastasses o cabelo só para me veres melhor, não me desenhavas só um sorriso, mas toda a razão da minha existência.
14.1.26
5.1.26
Natércia
Se Natércia eu fora e tu poeta que és me desejasses, virias com olhos febris, espada e a pena aparelhadas, para me abrires caminhos, onde pudesse rir
Mas infanta não sou, nem tenho anagramas do poeta que a amou, sou a oculta face de um acaso
O teu olhar distintamente negro estará por aí sorvendo lábios, sorvendo vida e eu quero ser Natércia de ninguém, olvidada de todos, como penedo no fosso da lua
Escolho ir, tenho de ir, já não há nada para ficar
28.12.25
À beira do rio
Não mudámos o curso de nenhum rio, nem secar o vimos secar. No entanto estivemos sempre de mãos dadas desatadamente cegas à beira desse mesmo rio.
Não bebemos a sua água, por isso o nosso esquecimento é episódico.
Como os deuses, já somos antigos na arte de amar meros mortais, produzindo vagas de ocasional desejo.
A que tarda
Perdemos hábitos como os velhos perdem dentes. Por exemplo, esperei-te tantas noites na tua capa homérica, sem conseguir encerrar a noite, inconclusa esta por falta da palavra, tantas vezes te quis sentir, tanto quis ouvir o discurso lírico da noite, que acabei por me fazer eu a que tarda, a que tardou por ser demasiado imaterial o improvável abraço, a incerta intimidade. Mas sabes que fazes parte do meu plano de paz. Para a morte, ainda não, mas para uma pequena vida. E hoje, ainda por cima, abusei do café e da saudade.
18.12.25
Envelhecer e amar
Envelhecer, uma operação quântica que Afeta e pele
Os músculos existências
Amar é uma operação alheia a qualquer processo temporal e afeta apenas
O músculo do coração
E bate sempre na sua contração de sangue, sempre vivo
Amar e envelhecer, é lixado
Até ao fim, em caminhos paralelos inconvergentes, porém
Tangenciais
Emocionalmente ocasionais
Fala-me com o teu sangue, nenhuma batida emocional será demais
24.11.25
Temos pena
A existência quem disse que se dissolva todos os dias na mesma velha taça dos mesmos dias? Um qualquer existencialista privado do sonho, uma aparição feroz, uma verdade. Temos pena.
Dói saber que tudo é intangível para lá do nevoeiro chuvoso. Tudo. Até para lá do Sol. Da Lua enganosa. Buscamos o sentido da vida através de velhos reposteiros e a vida é uma renovação exata da dor.
É verdade, sim. A viagem faz-se lenta, o mundo encolhe, as vozes suspendem-se no pó.
Velhos amores em napperons feitos de laçadas do pensamento e da saudade. Velhos poemas de um fervor salino.
É assim que deixamos de esperar que subitamente o amor venha ombrear connosco, tal como connosco vem ter o sol posto.
Tudo é demasiado intangível meu amigo. Existimos para imaginar sem viver e vivemos do que imaginamos. Uma maré cheia vazia de sentido. Temos pena.
22.11.25
Ao inverso
Cheira ao fumo das lareiras, os cães não ladram trôpegos de frio.
Esta noite recolho o coração nas mantas, por falta do teu corpo, para dividirmos o frio e o chá por dois, para levarmos adiante a mesma insónia, o riso igual.
Não é verdade que partiste. Dizem-me que sim, mas eu sei que é tudo inveja, nunca viram, nem sonharam, um viver assim.
Perco-me nos dias e penso sempre que amanhã é véspera de alguma coisa. Talvez espere um pouco de apaziguamento, assim como um abraço silencioso que funde o frio e fende o mundo.
Mais nada me interessa, sabes? Tenho a pele couraçada desta ascese que nunca quis. Apaziguamento, muito, muito íntimo apaziguamento, a força que nasce de dois é algo por que se pode viver.
Mas ficamos aqui cada um ao frio, cada um de face muda, a contar o peso dos dias. E não há regresso. Caminhamos tristes e pálidos ao inverso, sempre ao inverso e é inverno as noites são tristes assim.
23.10.25
Drawing a portrait
18.10.25
Resistência
Uma cela fechada onde cresço com o que me restou
Um terrasso sobre o mundo onde pinto as dores da alegria
Palavras assombradas, a sair de uns dedos desabitados (porquê hoje?)
Porque resistes e descobres que nem tudo nos riscou o dia
Porque uma vida tem a duração exata da primeira à última resenha de poesia
E as contas são feitas com a emoção da primeira vista, do primeiro olhar que nos refletia
E, assim, não há nada em mim que te resista!
6.9.25
No rescaldo do tempo
Como estás hoje no teu mundo? Moras a terra justa, drenas o tempo em barro seco, ou enleias memórias num novelo?
A que te sabe o dia, um morno domingo algo outonal, onde a esperança inverna?
Que salvação temos nesta incúria do tempo? Nada nos salva, meu amor. Só o teu nome, como um sopro na nuca:
ainda não chegou e já é coisa difusa.
Mas a tua sombra, sabes bem, onde estiver, é única.
16.8.25
Não consigo viver mais dias. Já são tantos e tão inúteis. Preparo lentamente a minha fuga, a maior de sempre. Será rápida e ninguém dará por mim, já que, presente ou ausente, ninguém me pressente. Falta aqui uma palavra. Uma só. Um só lírio. Nunca se ouve uma voz. É uma peregrinação que me assusta. Como se, na verdade, as minhas palavras viessem de um túmulo e esse túmulo fosse o meu. Pois bem. Que assim seja.
12.8.25
Carta
Na vida, o único sentido é o amor, o mais fértil dos sentidos é mesmo o amor, desculpa, passei toda a minha vida a dizer-te que só amando morremos melhor, (já que viver de amor é poesia), e agora já não tenho a certeza de sentir que sim, que ver o mesmo pôr de sol de mãos juntas, beber palavras pelos olhos e lacrimejar de emoção na mesma dimensão são as coisas que contam e que contamos, com o rosário de contas da narrativa que nos conta. Tenho tentado dizer-te que o vazio só está onde não está o outro. E se estiver o outro e houver vazio, então, esse não é quem amas. Não sei que mais te diga. Tens-me mas não me tens e eu não tenho nada. É uma deriva que leva à única conclusão possível. Nunca poderemos absorver mais do que a essência e essa é a sede maior da existência.
Mas entre perder o que és ou viver o que sou - passou toda uma vida.
Enfim, depois de tudo, alguém pisará as minhas palavras e cortará as minhas emoções, como caules secos, mas que não seja ninguém mais do que tu. E que te preencha a face do desejo.
6.8.25
Verbo declinável
Soubesses tu como te anseio, não como verbo declinável mas como o verbo do corpo
Virias, sem luto, sem estrias no peito, nada. Vinhas e pronto.
Sim, a solidão é minha. Mas não a quero. Obrigada, adeus. Que venha a próxima emoção. Ou nenhuma.
30.7.25
Incêndio
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