15.7.26

O Nada

Tudo que eu queria era dançar.

Cheguei ao mundo para viver e tudo que eu queria era sorrir e dançar até ficar corada,

Como uma minhota robusta e feliz

Sem estigmas de má sorte

Depressa percebi que ninguém escolhe o destino num menú de esplanada

E fiz-me forte

Mas a verdade é que eu falhei ao chegar ao mundo para contemporizar os vértices mais odiosos do Nada

Musa

Olha, Musa, é bom que te cales, porque já não serves nem ao poeta laureado de Paio Pires,

Nem ao poeta que tens alimentado em dezenas dos teus verdes anos,

Nem ao voyeur ocasional que te vem ler à sorrelfa,

Ou ao incauto que aqui cai como mosca desatenta e logo voa 

Nem aos raros seres que sabem o caminho das loas que despachas para o silêncio sideral...

... tudo isto enquanto a tua vida desce na ampulheta, e o Amor não te toca no ombro com o gesto doce de uma simples presença.

Que tristeza, Musa, tantas horas deste a quem te sugou o pobre sangue e a escassa verve, e tu a pensares que havia Amor.

A tua cegueira, a troca de letras, a teia de rugas que ganhaste em vinte anos vezes 365 noites fazem de ti, Musa, a mais patética criatura do Universo. E ainda consegues destilar algo mais do que amargura?

És fantástica, Musa, mas o teu Tempo está a desaparecer. Estás indignada? Ou confusa?

8.7.26

Desencontro

Às vezes o amor vem, mas nunca és tu. É outro amor qualquer, uma alma desviada, uma máscara sem vida

Outras vezes o amor vem disfarçado, de mãos nos bolsos, com a timidez de quem quer, mas não quer querer

Quando o amor vem sem disfarce e és tu, mesmo assim, és tu disfarçado de ti

E eu gostava que viesses inteiramente tu, não há amor que dure assim, o de dois que se fazem um sempre à espera da eternidade

E o tempo é só um

7.7.26

Dores

No meu estendal pesam as dores, pesam os mistérios e algumas roupas velhas molham as flores,

Pesos que agora me pesam mais do que já pesaram. Parece que todas as dores se resumem numa só, perderam a sua identidade, a sua origem, a profundidade que atingiram.

Agora é só uma dor e chama-se existência, esse modo tão terreno de ser.

Tão próximo do não ser

4.7.26

Persianas

Hoje fechei todas as persianas da casa, para encerrar cá dentro a minha solidão. 

Não me incomoda o calor intenso, incomodam-me outras coisas intensas que não digo

Fechei-me dentro da casa, contra os ruídos do mundo. 

Era bom que não tivesse entrado a inquietude de existir. 
Uma penumbra feita de frescura,
e o chão dentro de mim, a arder

Já não busco a tua mão. Não busco nada. Tenho medo que algum dia alguém me consiga ver, entre o silêncio, no apagamento das persianas,

no inverno deste longo verão.

1.7.26

Asserções

Uma onda é a resposta a outra, como um eco é a resposta a outro

A atração, dois ecos que se encontram e se unem no mesmo som

E o amor? Ah, o amor é também uma questão de ondas espraiadas na areia, uma encontra a outra e rolam felizes numa fusão de águas

29.6.26

Material literário

Pronto. Agora já sabes. As palavras são sombras do que foram. É uma pena desafiá-las na sua pujança ou miséria de águas.

Também eu desapareço nelas.  Lamentavelmente líquida, a minha vida corre mais do que eu. Queria ficar na antecâmara de qualquer facto.

O mundo mente. Tu mentes e eu já só vejo a matéria viva do tempo. É o crime do século. Desprezar a conotação, o lirismo, as rendas literárias e ser denotativamente banal.

Não desperdizes lume no teu apego ao ideal. O deslize superficial da foca. Isso sim, é material literário.

22.6.26

Medo do mundo

O melhor refúgio é dentro de nós

Fora, fica o ruído do mundo

Não me digam nada

Tenho medo

Profundo

Fundo


19.6.26

Cantiga

A existência é doce nos quatro cantos do meu peito.

É a casa de antes e a que será. Por esta porta entraste, por outra porta (não) sairás.

No ramo alto da mais alta árvore, um pássaro rasa a face do dia, o fogo vivo que será. E tu sabias?

Voos nos existem na sóbria paz. E tu, se os não sentes, o que serás?

Entrou o amor por esta porta, será que fica, ou partirá?


5.6.26

Sem nome

Escrevo sem nome o nome que no peito escrito tinha

Aos montes ensinando e às ervinhas que o melhor que guardo de ti era o momento em que vinhas


Racionalidades

Dirá alguém que a racionalidade rói por dentro a região do amor

E com razão o diz.

Já ando a escrever cartas de amor há tanto tempo que apenas a razão me assiste este mover dos dedos no teclado

Um ciclo teimoso de mim para ti

Onde estiveres poderás vir beber a tua sede de emoção

Mas alguém te dirá que o discurso amoroso é fruto de estranhezas climáticas 

Alheias ao coração

4.6.26

Cometer

Cometo o impossível quando acometo o teu ser (tão fluido) com jogos de amor, tu que és como um cometa que varre o universo e se assinala aqui e ali, sempre em rota de nenhuma colisão, a cometer a vida como quem comete uma fuga 

O amor joga-se ao ar, espalha-se até que o apanhe quem o quer e cometa a maior loucura de todas, a de o devolver como um boomerang de estrelas, que seja certeiro como a seta que o semeou e fez florir

Cometo a insana poesia do amor e tu cometes comigo o crime maior de deixar ser, como se a vida estivesse agora a nascer

28.5.26

Trocadilhos

Como me atrais, ontem e hoje, ainda agora?

Como me atrais tanto se tanto me trais?

E se me trais, vais ver a quem mais atrais

Noutra existência noutra terra, noutra hora

E se aí vais, alheio a meus ais, diz-me, porque me atrais?

São trocadilhos de quem trai a quem atrai, ou de quem atrai quem trai?

Perguntas estas tais, podes continuar a trair quem atrais que eu continuo a atrair quem não vem mais

27.5.26

Momentum

Efémero o olhar que balanço no universo, de estrela em estrela

A terra, escaldante, a brisa da noite a mexer-me no cabelo e eu deitada a sentir esse alento quente das lajes

Foi só um momento

Para eu ficar presa à lua, uma candeia de brilho, não foi preciso mais

Realizei que ela vai continuar onde está, depois de mim

Confortou-me pensar que deixo a lua aos meus herdeiros, conforme lhes deixo as lajes quentes onde pouso agora

O mundo pode mudar, mas não as estrelas nem as lajes do meu quintal

Achei que isso me fará partir feliz


24.5.26

Credo

Creio nas sagradas chamas da paz, flâmulas de contemplação, chamas de puro amor

Creio que o amor cresce como o trigo e a vida é pontualmente viçosa em cada estio

Creio que a morte é como as cinzas do lumeiro, sempre ardeu e arderá, enquanto houver braseiro

Creio em mim, como admiro as ervas que rompem o betão 

Creio em ti como nas horas avançadas da noite, que crescem fundas na solidão

Creio nela sobretudo, nessa oração silenciosa de quem se reúne consigo e sozinho limpa devagar o que resta do seu mundo

De resto, creio em Deus e Jesus Cristo, Os que carregam a cruz de cada um, o gesto maior e mais profundo 

Que eu recuso, sou só, carrego a minha luz e bebo do meu cálice a raíz do amor. Se amor vier, bebemo-lo juntos. Creio qie sim


7.5.26

Pregão

Alimento a fome com pouca cousa. Basta-me ver o teu olhar, ouvir a tua voz e imaginar que a tua fala se projeta paralelamente ao meu ouvido, sem desvios, sem arcos em ogiva. 

Na casa, a permanência é intermitente, como o farol do Bugio. Quando estou, escuto as ondas e espero por ti. Quando não estou, as ondas murmuram o teu nome. Mas tu perdeste a casa, como perdeste o brilho do olhar.

Grita por mim mais vezes, talvez te ouça, em vez de apenas ouvires as ondas, a voz seca das rosas.

Manda dizer um pregão pela aldeia, a anunciar que perdeste o caminho do meu ser, enquanto eu ando descalça pela vida, a jurar que eras tu, no outro dia, na esquina da tarde, a escutar, a olhar, a ver.

30.4.26

Ponto celeste

Eu sei que permaneces em lugares onde o hemisfério oposto expõe a sua belíssima flora constelar

Nunca vi os céus desse hemisfério, onde tu vês um, vejo eu o outro, nunca nos conseguimos morar

Mas, meu amor, repara, se o universo se comprimisse, haveríamos de nos fundir num só fogo, um ponto celeste

Haveríamos de ser unos, quando agora somos apenas únicos, dois únicos seres na multidão, esperando rasar a mão ou o olhar noutro ser único

Uma palavra com outra, adjetivo e nome, o verbo que teria o complemento em falta, Um admirável amor que assim se perde, Uma exata simetria que assim se busca - palavras que nos vêm frequentemente à boca

Tão inúteis como loucas


22.4.26

Quase a chegar

Estavas quase a chegar, meu amor, estiveste sempre a vir, vinhas logo, virias certamente muito prestes, mas não vieste

Sempre fui eu a ir, a correr comarcas e ribeiros, a passar pontes de palavras longas para passares sobre a sua trama escarlate

Flores ficaram em lugares escondidos, os caules envoltos em papelinhos pueris, as coisas que te dizia e vinham da minha pobre arte

Como aquela fonte (talvez cascata) que ainda guarda o meu perfil em espera, com o sol a acobrear-me os cabelos e tu sem vires, e tu sem veres

Os momentos passam, nós partimos, mas quem fomos ainda lá está

E tu sem vires e eu sempre a ir para cada vez mais longe das emoções

Que já não vêm, que tu não vens e eu quase não vou, porque quem fui é a sombra que cá está. E já chegou

20.4.26

Seres da madrugada

a todos os seres da madrugada, tanto os que sonham o dia, como os que embalam a noite, os insomnes, os doidos, os loucos, os bêbados, os operários que apanham por força maior o primeiro comboio da madrugada, 

deixo o recado: somos unos na inquietude e há poesia bastante nos nossos atos, nos pensamentos que passam e voltam, aflitos ou encantados

estamos a meio da noite, à espera de um comboio que já passou ou que virá atrasado

mesmo assim alcançamos um lugar na transcendência do tempo, paramos, quem somos, de onde viemos, para que abismo caminhamos, onde acaba o imenso céu estrelado?

a poesia é o canto do primeiro pássaro que virá, sem falta, pontuar-nos os medos

18.4.26

Dizem

Dizem que o amor vai e vem, volta e parte

Talvez

Mas o que ninguém ainda disse é que o amor permanece

Quando para tanto há engenho e arte

Quando para tanto o corpo de amor se veste

Recentemente...

O Nada

Tudo que eu queria era dançar. Cheguei ao mundo para viver e tudo que eu queria era sorrir e dançar até ficar corada, Como uma minhota robus...

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